Como organizar uma Confraria? Dicas para formar seu grupo de degustação.

Somos seres relacionais e, portanto, reunir-se a um grupo de amantes da bebida do deus Baco é a melhor maneira de aprendizado. Sem falar que esse tipo de prova (em grupo ou em confraria) possibilita discussões calorosas dentro de um ambiente lúdico, principalmente quando a degustação se realiza às cegas (não se mostram os rótulos).

Há ainda a questão econômica, tão sensível aos nossos bolsos; a prova em conjunto diminui os custos de maneira significativa, possibilitando a análise de uma gama mais ampla de vinhos.

Planejamento é a palavra-chave para o sucesso de qualquer coisa, inclusive para um grupo ou confraria de vinho que tenha a pretensão de se manter e de evoluir. Número de membros do grupo (que deve ser, diga-se de passagem, o menor possível), frequência e local das reuniões, temas dos encontros, tudo deve ser bem sistematizado e programado com alguma antecedência.

Alguns pré-requisitos são essenciais, para não dizer vitais, à sobrevivência e desenvolvimento do grupo/confraria. Entre eles, destacamos a paixão pelo vinho. Nos iniciantes, sempre vislumbramos a possibilidade de essa paixão (sentimento menos duradouro) se transformar em amor (sentimento quase eterno). Já os iniciados, com certeza, têm uma relação amorosa com essa bebida.

O ideal é que os participantes cheguem, no máximo, a oito. Todos devem ter a consciência de que a formação da confraria permite não só que se congreguem amigos, mas também que se façam novas amizades (e o vinho é muito capaz disso), além de desafiá-los a conhecer mais sobre essa bebida maravilhosa. Por outro lado, deve-se reconhecer que o aprendizado sobre vinhos exige humildade e muita prática no exercício da degustação. É a velha história: não se aprende a nadar sem cair na piscina.

A organização de um evento como uma degustação dá um pouco de trabalho, e todos devem estar comprometidos igualmente, o que nem sempre ocorre, o que acaba por criar alguns problemas, como atraso das degustações propostas e, mais tarde, dissolução do grupo/confraria.  Como em todo grupo, pode (e deve) existir um líder, um entusiasta que funcione como catalisador.

Em interessante artigo publicado em um site português (www.cincoasoito.com.pt), sobre como formar um grupo de prova, o jornalista Rui Falcão dá algumas dicas que vale a pena conhecer:

  • O passo mais complicado é a formação do grupo. As pessoas devem ter o mesmo nível de conhecimento e motivação, além de disponibilidade de tempo, para que as provas de degustação sejam realizadas regularmente.
  • Participantes ocasionais “são a melhor forma de matar um grupo de prova à nascença”. Em minha opinião, não vejo nada contrário a permissão de poder chamar um ou dois convidados ocasionais (em grupos até seis pessoas), porém essas pessoas não devem se repetir.
  • O número de pessoas deve variar entre quatro a dez (uma garrafa “normal” serve, de maneira aceitável, dez pessoas).
  • Os encontros podem ser quinzenais ou mensais e devem ser centrados no foco da reunião, que é a prova de vinhos.
  • O lugar onde se realizam as provas pode ser um restaurante ou a casa de um dos integrantes do grupo (melhor em sistema de rodízio). Mas o local deve ter boa iluminação, ventilação e temperatura. Pede-se cuidado com odores provenientes da cozinha ou de flores.
  • Proibição de fumar antes e durante a prova. Cuidado também com perfumes, colônias pós-barba e outros aromas intensos.
  • Deve-se investir na compra de taças próprias para degustação, de modo que cada integrante do grupo/confraria disponha de seu conjunto com, no mínimo, seis unidades. A compra de decanter (um ou vários) também se faz necessária, além de bloco de apontamentos e caneta ou lápis; podem, ainda, ser utilizadas fichas de degustação.
  • Como processo educativo deve-se escolher uma temática para cada prova. Uma opção inicial interessante é repetir provas realizadas por revistas especializadas (por que não aproveitar e escolher algumas que a Wine Style realiza?). Podem ser feitas provas horizontais (vinhos à base da syrah de várias regiões, por exemplo) ou verticais, em que se degusta o mesmo vinho de safras diferentes.
  • É importante definir uma escala de pontuação, seja ela até 20 ou até 100, para que se discutam as notas de prova, assim como as características dos vinhos degustados.

A dinâmica desses encontros pode variar na frequência, formato, número de vinhos, quem traz vinhos e o que trazer. Particularmente, acredito mais em degustações mensais, cuja responsabilidade fica a cargo, a cada vez, de um dos integrantes do grupo/confraria, em sistema de rodízio. Com relação ao número de garrafas, em geral deve-se fazer a conta de uma (ou meia) garrafa para cada participante.

Com objetivo de facilitar a criação de um grupo de degustação/confraria, descrevo a dinâmica da que participo e de duas outras que participei, já que cada uma tem suas peculiaridades e regras.

Numa delas que participei, uma pessoa (sistema de rodízio) é responsável por tudo: trazer (oferecer) vinhos e comida (que deve estar harmonizada com os vinhos), escolher o local da degustação, que pode ser sua residência, ou em um restaurante (que ele reserva e assume custos). Talvez seja uma das confrarias mais antigas do Brasil, essa conta com cinco amigos do vinho. Em geral, o responsável por aquela degustação traz de um a três convidados (não-fixos).

Em uma confraria que que faço parte, as reuniões mensais são feitas em um local fixo e, a pessoa responsável (rodízio) por aquele encontro leva os vinhos, discute com a chef os pratos a serem feitos (sempre levando em consideração a harmonização) e cada um paga (preço fixo) as iguarias servidas (petiscos, entrada, primeiro e segundo pratos, sobremesa). São seis amigos que se reúnem há muitos anos em volta de uma boa mesa e de um bom vinho. Muitas vezes, o responsável naquele dia assume as despesas de um ou dois convidados.

A terceira confraria, infelizmente sucumbiu, pois, dois casais se separaram. Formada por quatro casais de amigos, daí seu nome, Les Mariages (“Les mar” para os íntimos). A dinâmica desse grupo/confraria prevê que cada casal leve dois vinhos, numa sequência estabelecida: se em determinado encontro levou champanhe, na próxima levará brancos, depois tintos e, por fim, vinhos de sobremesa. Assim, degustamos oito vinhos naquela noite. O local varia a cada mês (restaurantes, em geral) e dividimos o valor da refeição. O espírito da harmonização vinho-comida é sagrado (discutido com o chef)

Um elemento divertido e enriquecedor a ser acrescentado (usado nas confrarias acima descritas) é a possibilidade de a degustação ser às cegas. O organizador ou aquele que traz os vinhos cobre as garrafas (ou numera os decantadores) e assinala-se um número em todos os vinhos para que possam ser identificados mais tarde. O problema de seis taças por participante pode ser resolvido degustando-se os vinhos dois a dois ou três a três. Fazem-se as anotações desejadas, lavam-se as taças e passa-se para a etapa seguinte.

É útil colocar depois das provas à disposição dos participantes alguns textos básicos de consulta sobre vinhos ou até mesmo fazer um resumo dos vinhos degustados: região, pontuações ou prêmios, características organolépticas (visual, olfativa e gustativa).

Gerson Lopes

 

 

 

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