Sexualidade feminina

Entrevista dada para o site “cuidado Feminino

Por muito tempo o sexo para as mulheres foi encarado apenas como um meio de reprodução. Porém, com o passar dos anos, em meio a descobertas revolucionárias como a pílula anticoncepcional na década de 1960, as mulheres puderam desenvolver sua sexualidade em um outro contexto, buscando o prazer durante as relações afetivas-sexuais e conquistando marcos importantes nessa área. A mulher da era moderna valoriza mais as suas experiências sexuais e procura ter um conhecimento maior do seu corpo para poder, dessa forma, vivenciar uma sexualidade plenamente satisfatória.

Para o coordenador do Departamento de Medicina Sexual do Hospital Mater Dei (BH/MG), Gerson Lopes, também vice-presidente da Comissão Nacional de Sexologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) e autor e editor do site “Vinho e Sexualidade”, a sexualidade, antes de ser “natura”, é cultura e, portanto, vai se transformando com o tempo.

“Infelizmente, as mudanças ocorrem devagar. Nas últimas décadas, as mulheres vêm investindo mais em seu erotismo, não responsabilizando o seu parceiro por ele. Estão se conhecendo mais, exigindo mais do parceiro o que gostam e não gostam, estão mais ativas, deixando de lado a passividade sexual de ontem”, comenta.

Ele ressalta, entretanto, que desde a revolução sexual feminina, as mudanças ainda estão aquém do que se esperava. “Ainda há muito desequilíbrio nas relações entre homens e mulheres, pois eles ainda resistem muito em quebrar valores machistas, de dominação”, afirma o ginecologista e sexólogo.

Na opinião da médica do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), Elsa Aida Gay, coordenadora do Ambulatório de Sexualidade Humana na Clínica de Ginecologia do HCFMUSP, três elementos foram importantes para que houvesse uma mudança significativa no comportamento sexual feminino das últimas décadas.

“Sem dúvida, a revolução sexual foi um marco importante na história da sexualidade feminina, porque com a contracepção as mulheres deixaram de fazer sexo apenas para reprodução para fazê-lo com um conteúdo erótico”, esclarece.

Outro fato que colaborou para uma mudança no comportamento sexual feminino, segundo a ginecologista, foi o aparecimento do sildenafil (substância do medicamento Viagra, utilizado para disfunção erétil), que não só melhorou a vida de muitos homens como também, indiretamente, favoreceu as mulheres.

O terceiro fato ressaltado por Elsa foi o aparecimento da vacina para o papiloma vírus humano (HPV). “Apesar de o HPV já ter assustado e distanciado muita gente de sua sexualidade, a chegada da vacina foi, sem dúvida, muito importante”, afirma. Ela salienta que desde as mulheres começaram a buscar satisfação sexual sem a preocupação de gerar um filho, as conquistas na sexualidade são cada vez maiores.

Ela revela também que hoje as mulheres se permitem conhecer mais a anatomia do próprio corpo. “De acordo com o livro Amor e Orgasmo, de Alexander Lowen, a satisfação no amor sexual pode ser alcançada pelo indivíduo que está em contato com seu corpo e com o seu sentimento”, comenta. A ginecologista enfatiza que atualmente se observa o crescimento da cultura do sexo casual, que vem com prós e contras. “Estamos numa era da sexualidade sem regras, sem culpa pelo prazer e, muitas vezes, quando um homem e uma mulher se encontram casualmente – e os aplicativos modernos facilitaram muito isso – acabam praticando o sexo de forma não segura, infelizmente, sem pensar no dia seguinte”, aponta. Segundo ela, embora o preservativo exista há muito tempo como meio de proteção para doenças sexualmente transmissíveis, muitas vezes ele é dispensado durante a relação sexual.

Problemas sexuais mais comuns
De acordo com Lopes, os problemas sexuais femininos mais frequentes nas mulheres jovens são os transtornos do orgasmo; nas mulheres maduras, os transtornos do desejo-excitação sexual. “Enquanto o primeiro transtorno tem tratamento relativamente fácil, o segundo produz dificuldades significativas de resolução”, destaca o médico. Ele revela que, ao contrário dos homens, nas mulheres a medicina sexual (medicamentos) ainda é pouco atuante. “Infelizmente, a flibanserina, divulgado erroneamente como o ‘Viagra Feminino’, não trouxe os resultados esperados no transtorno de desejo sexual, o mais comum entre as mulheres, além de trazer efeitos colaterais significativos, como sonolência, fadiga, tontura, náusea, etc”, lamenta.

Segundo Elsa, um dos grandes mitos em torno da sexualidade feminina está relacionado às mulheres que estão entrando no climatério e que, por causa disso, acreditam que é normal perder o desejo sexual. “Os hormônios podem ter uma data de validade, mas a vivência da sexualidade depende de cada mulher. Dessa forma, a falta de desejo não pode ser vista como normal só porque a mulher entrou na menopausa”, destaca. “Na mulher, as disfunções sexuais estão mais relacionadas a uma questão psicológica do que propriamente orgânica”, observa.

Outro mito importante está relacionado ao orgasmo. “Tenho visto no ambulatório de sexualidade que muitas mulheres nem sabem definir o que é o orgasmo”, informa a ginecologista. Conforme ela explica, o orgasmo é um fenômeno no qual está inserida uma resposta muscular, neurológica e vascular. Mas, com ou sem orgasmo, a médica salienta que o mais importante numa relação é poder chegar a uma satisfação sexual, que diz respeito ao envolvimento, às carícias, à mulher sentir que é importante para o outro. “Acredito que a mulher que conhece o corpo e tem um mapeamento das áreas mais importantes para que seu prazer aconteça vivencia uma ótima sexualidade.”

Na opinião de Lopes, para que cada mulher experimente sua sexualidade de forma plenamente satisfatória, a comunicação é fundamental. “A única forma de saber se o sexo está satisfatório para o outro é perguntando. Ninguém consegue ler o pensamento do outro”, diz. Ele enfatiza que, muitas vezes, a vida sexual (vivência) está insatisfatória, apesar de o sexo (função) estar normal. “Há desejo, excitação (ereção no homem e lubrificação na mulher) e orgasmo (clímax feminino e ejaculação masculina), porém, um ou ambos estão insatisfeitos com a vida sexual, seja por problemas de frequência sexual, tempo de preliminares, compreensão do que é sexualidade, rapidez na ejaculação, mitificação do orgasmo feminino, etc.”, conclui o especialista.

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