Adolescência e sexualidade

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SBRH – A sexualidade é vista com naturalidade pelas adolescentes ou continua sendo tabu? E como os pais encaram esta questão?

GL – O grande tabu ou mito que envolve a sexualidade dos jovens de hoje é aquele que liga sexualidade a sexo e este por sua vez está fortemente ligado a performance, desempenho. É o que muitos chamam de “mito do sexo científico”. A naturalidade da experiência sexual é prejudicada pela necessidade dos jovens a todo instante de se avaliar, pesar e medir como se fossem mercadorias. Se eu me amo eu não deveria me avaliar. A exigência social da performance sexual acaba reduzindo a sexualidade em sexo que por sua vez se transforma em um jogo competitivo com regras e juízes. É bom deixar claro que sexualidade transcende sobremaneira o sexo, envolvendo necessariamente afeto, emoção, comunicação e prazer. Por outro lado, os pais ainda se mostram despreparados para lidarem com a sexualidade de seus filhos. Todos desejam ser pais e mães modernos, mais ninguém sabe exatamente o que isso significa na prática do dia a dia. Diria que a maioria dos pais se perdem na transição entre o ontem e o hoje, entre o que tiveram como educação e o que propõem, entre o dizer “não” a todo o momento e o não saber dizer “não”.

SBRH – As jovens se preocupam com a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis?

GL – É interessante relatar que jovens que tem cuidados com prevenção são aquelas que estão bem com sua sexualidade. Em geral, jovens que tem problemas na sexualidade tendem a não cuidar da prevenção. Dois grandes problemas na prevenção dizem respeito ao uso de álcool e a mídia, principalmente televisiva (todo mundo transa e ninguém pega doença, esta é a mensagem). A presença do pensamento mágico entre adolescentes: “comigo não acontece”, é responsável pela resistência a prevenção, e é reforçada quando o jovem faz uso do álcool ou ver televisão frequentemente.

SBRH – O que se poderia considerar direitos sexuais das adolescentes?

GL – Direito a liberdade, ao conhecimento, a prevenção.

SBRH – O uso de álcool e drogas parece estar aumentando entre as adolescentes. Isto repercute sobre a vivência da sexualidade? Qual é o papel do ginecologista nesta situação?

GL- Enquanto a sexualidade proporciona a possibilidade do crescimento individual e interpessoal, o álcool e a droga fazem o movimento contrário, pois no final afastam a pessoa de si mesmo e dos outros. Além de não cuidar da prevenção, problemas sexuais são mais frequentes entre os usuários. O ginecologista moderno, além de profissional da saúde tem que ser um educador e como tal ele tem responsabilidade sobre o crescimento da adolescente, lógico, menor que a dos pais, que são os verdadeiros e genuínos educadores.

SBRH – Que perguntas não podem faltar na anamnese da adolescente?

GL – Aquelas relacionadas a sexualidade: presença ou não de dúvidas, medos e angústias relacionadas ao tema, presença ou não de masturbação e vida sexual, prevenção. É fundamental mais do que vê-la é observá-la, mais do que ouvi-la é escutá-la, pois ver e ouvir são aspectos físicos da comunicação, ao passo que observar e escutar envolvem aspectos psicológicos. Garantir confidencialidade é também fundamental neste aspecto.

SBRH – Como as adolescentes lidam com a homossexualidade?

GL – Com dificuldades, naturalmente menor que as adolescentes de ontem onde a carga de homofobia era bem mais intensa. Ainda há muito medo de ser homossexual entre algumas jovens ao passo que outras não só experimentam como também visivelmente expressam, pois estão bem com sua orientação sexual ou usam desse artifício para agredir os pais geralmente.

SBRH – Quais são as dúvidas mais frequentes dos pais em relação às filhas?

GL – Momento “ideal” de iniciação sexual, masturbação, prevenção, quando iniciar a conversa sobre sexo, livros indicados.

SBRH – Quais são as dúvidas mais comuns da adolescente em relação à sexualidade?

GL – Dizem respeito mais a preocupação de ter uma performance idealizada e cuidados na prevenção.

SBRH – A internet, o “ficar” e o bullying, interferem no comportamento sexual da adolescente?

GL – A internet como qualquer mídia pode ocupar o espaço de “educadores sexuais” de adolescentes porque ele foi deixado vago pela família e a escola. A invenção é extraordinária todavia. Como usá-la é o complemento, e é indispensável. O “ficar” e o bullying sempre existiram na história, só que com outro nome ou sem merecer a importância que é dada na atualidade. O segundo como qualquer forma de coerção e agressão é ruim e pode afetar negativamente a sexualidade e um “ficar” que inclua sexo sem estar preparado para ser vivenciado pode também ser origem de problemas sexuais.

SBRH – Que papel a mídia desempenha no mundo sexual da adolescente?

GL – O sexo tem sido intensamente explorado pelos meios de comunicação, tanto com a finalidade de alcançar picos de audiência, como fazer marketing de produtos variados. Com essa motivação, a TV transformou-se em principal fonte de deseducação sexual para adolescentes, pois vincula o sexo com pouquíssimas referências à contracepção e DST além de passar mensagens tipo: “adultos não planejam sexo”, “adultos não usam contraceptivos” e o público principal são os adolescentes. É preciso produzir mais programas educativos por profissionais capacitados.

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Entrevista de Gerson Lopes, ao Boletim SBRH (Sociedade Brasileira de Reprodução Humana)

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