Uruguai, um olhar além da Tannat

tannat

A uva Tannat

Na terra da Tannat há uma diversidade de casta tão grande que, em uma viagem a Montevidéu, meu objetivo foi o de ir atrás de alguns de seus vinhos esquisitos, em nossa língua, traduzido em algo diferente, não usual ou estranho. Para isso escolhi produtos onde a uva é muito rara neste país (às vezes incomum em todos) ou a mescla ser deveras estranha ao enófilo.

Pretendo no texto brincar um pouco com o significado tão diferente entreas palavras esquisito em português e exquisito em espanhol, muitas vezes motivo de confusão ao viajante.

Imbuído do espírito desbravador que todo amante de vinho deve ter, me propus saber se aqueles selecionados por mim para a degustação como esquisitos poderiam ser avaliados como exquisitos, significando alguma coisa como refinado, primoroso, algo além de simplesmente bom. Adotando o critério de estranhos ao meio, comprei e provei três brancos e dois tintos, respectivamente: Pisano Verde Virgen 2012, Pisano Pájaros Pintados Reserva Superior Torrontés 2011 e Bouza Cocó 2011; Sin Nombre Caladoc 2011 e Giménez Méndez Alta Reserva Arinarnoa 2011.

A seleção poderia ser outra, pois as possibilidades disponíveis eram muitas. Quando se diz que uma vantagem da Argentina sobre o Chile, em termos de enologia é a diversidade, pode-se também afirmar que no Uruguai esta é maior ainda. Poderia ter selecionado muitos outros, não só brancos, como o Don Pascual Sauvignon Gris 2012, que me surpreendeu muito bem; o Bouza Alvarinho 2012, melhor que muitos alvarinhos/albariños portugueses/espanhóis, assim como o interessante Pisano Trebbiano Toscano Primeira Reserva 2011. Isso só para ficar apenas com os vinhos brancos que experimentei nos restaurantes, fora aqueles à base de Viognier, Pinot Grigio, entre outros que não degustei. Entre os rubros poderia ter escolhidos muitos outros, à base da Petit Verdot, Syrah, Pinot Noir (tomei um e desanimei, sem tipicidade, muito esquisito), assim como o Vilasar Nebbiolo ou Vilasar Sousão, ambos da bodega Carrau. Sem falar no Giménez Méndez Puzzle feito com 15 variedades de uvas, 11 tintas e 4 brancas. Os três últimos os conheço e posso dizer que se são esquisitos, ao mesmo tempo merecem também a qualificação de exquisitos. Estranhos, ou não muito usuais ao lugar, sim, porém são deliciosos.

E a avaliação dos vinhos selecionados por mim? Apenas esquisitos ou também exquisitos?

Pisano Verde Virgen 2012: um Fino Blanco de Aguja, como está mencionado no rótulo. Diz que vem da região de Progreso, porém não consegui saber qual (ou quais) uva (s) são utilizadas. Menciona que é Verde, jovem, pois é “engarrafado antes que o vinho madure” e Virgen, “pues fue decantado naturalmente” (e não diz mais nada). Amarelo claro, leve frisante, discreto aromas cítricos, bem ‘frutadinho’. Percebe-se bem o ‘agulhar’ na boca, fresco, leve corpo e discreto amargor no final de boca. Comparável com os mais simples Vinhos Verdes portugueses. Teor de álcool: 12,5%. Apenas esquisito, e só!

dowPisano Pájaros Pintados Reserva Superior Torrontés 2011: Tem a tipicidade da uva que dá a identidade branca à Argentina. Parece mais com os vinhos Torrontés de Mendoza, que de Salta, pois não mostram aquela cremosidade percebida na maioria dos “saltenhos”. Amarelo palha, frutas tropicais e algo mineral ao nariz, na boca discreto amargor (muito presente em vinhos desta casta), que não compromete. Teor de álcool: 13,5%. Esquisito vinho por ser do Uruguai, depois de prová-lo também diria: un vino exquisito!

Bouza Cocó 2011 : Esta bodega já algum tempo surpreendeu a todos com um delicioso Alvarinho/Albariño, no mesmo patamar dos melhores do Minho (Portugal) e Galícia (Espanha). A partir de 2010 o enólogo Eduardo Boido nos surpreende ainda mais com este corte não usual de Chardonnay com seu reconhecido Alvarinho. É uma homenagem à avó de Juan Luis Bouza (proprietário), a senhora Socorro López, apelidada pela família e amigos de Cocó, e que diziam gostar muito dos vinhos dessas duas castas. Produção limitada (em torno de 1500 garrafas), esta segunda versão mostra se tratar de um vinho ainda novo, com madeira muito bem integrada ao conjunto. Tem bom corpo e frescor além de um final de boca agradável e persistente. Teor de álcool: 13,5%.  Exquisito, porém continuo preferindo ainda o monocasta Alvarinho.

Sin Nombre Caladoc 2011:Aqui temos dupla esquisitice, seja no nome da vinícola (Sin Nombre) e da uva (a rara Caladoc). Desconhecida pela maioria dos enófilos, Caladoc é fruto de cruzamento entre a Grenache Noir e Malbec, obtido em 1958, por um ampelógrafo francês, Paul Truel. Sabemos de sua presença em seu país de origem, a França (Rhône e Languedoc), assim como Portugal, EUA (Costa Central) e Argentina. Interessante dizer que uma vinícola norte-americana de Paso Roble (EUA), a Peachy Canyon Winery, rotula seu vinho com esta uva de Sin Nombre (em espanhol mesmo). Infelizmente, valeu apenas pela curiosidade. Muita cor, aromas de frutas vermelhas, mas peca pela falta de frescor, toque de álcool a mais e persistência curta. Teor de álcool: 14,5%. Um vinho muito simples, sem identidade. Avaliação do vinho? Esquisitérrimo! Termo não encontrado no dicionário de português, porém o usei para reforçar sua condição de esquisito.

gimenezGiménez Méndez Alta Reserva Arinarnoa 2011 – Também de origem francesa, a uva Arinarnoa surge em laboratório a partir do cruzamento das castas Merlot e Petit Verdot. É uma criação de Marcel Durquety, na época, Diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Agronômicas da França (INRA), em Bordeaux, no ano de 1956. Combina a potência e a intensa coloração da Petit Verdot com a elegância da Merlot. No Uruguai, somente a excelente bodega Gimenez Mendez produz vinhos com esta uva, na linha Alta Reserva, em corte com a Tannat ou no estilo solo, como este. Chamam a atenção no contra rótulo o fato de a fermentação se dá em tempo menor a fim de diminuir um pouco a extração de seus potentes taninos. No Brasil, a Casa Valduga, em sua linha Identidade, tem também um bom Arinarnoa, tendo inclusive já recebido indicação de vinho da semana pela prestigiosa revista inglesa Decanter.  A conhecida vinícola argentina Zuccardi também tem um produto com esta uva em uma linha – Textual (de uvas incomuns como Marselan, Ancellota ou Arinarnoa). Teor de álcool: 13,5%.Esquisito apenas ou exquisito? Trata-se de um vinho exquisito, capaz de nos seduzir pela potência e ao mesmo tempo pela elegância. Tem momentos que nos faz lembrar um excelente Merlot do Novo Mundo, em outros, de um grande Petit Verdot, parecendo respeitar sua árvore genealógica.

Já conhecia muitos vinhos uruguaios e acredito que sempre é bom poder confirmar in loco o quanto seus vinhos Tannat, estilo solo ou em assemblage realmente são exquisitos. Provei muitos Tannat, porém o destaque da viagem, o que mais me encantou dentre vários tops foi o Don Julio Ariano Special Reserve 2006, uma mescla de Tannat, Merlot e Syrah. Fascinante, casando perfeitamente com o delicioso assado – Ancho Maturado – no imperdível restaurante Rara Avis, ao lado do Teatro Solis, na Ciudad Vieja. Um fato interessante: quando me deparo provando vinhos com uvas ditas emblemáticas (Tannat, Malbec, Zinfandel, Carmenere e Shiraz), a minha preferência quase sempre se dá naqueles cortados (em assemblage) em relação aos estremes (monocastas), com exceção talvez da última casta que dá o emblema à Austrália. Sobre a Pinotage, uva emblemática da África do Sul, até hoje não tomei um vinho solo ou em corte que me seduzisse.

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