A Califórnia vinícola

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A produção de vinhos no estado da Califórnia (EUA) se divide entre a Costa Norte (Mendocino, Condado dos Lagos ou Lake County, Contrafortes da Sierra ou Sierra Foothills, Vale do Napa, Sonoma, Carneros e Vale de Livermore), Costa Centro-Norte (do Sul da Baía de San Francisco até Monterey, inclusive) e as costas Central e Centro-Sul (de Paso Robles, ao Sul, ao Vale Santa Inês). Outros falam apenas em uma Costa Central, que começa na Baía de São Francisco, ao Norte, e vai até Santa Bárbara, ao Sul. No extremo Sul, já próximo a San Diego, a produção é muito grande; porém, a preocupação se dá apenas com quantidade e não qualidade – muitos vinhos não são de Vitis vinifera, portanto, não são de uvas nobres.

Minúscula, oito vezes menor que Bordeaux, e limitada pelas montanhas Mayacamas de um lado e as Vaca Mountains do outro, essa região é perfeita para o turismo. Hotéis fantásticos, restaurantes fabulosos, visitas inesquecíveis às vinícolas, passeios de todos os tipos (bicicleta, balão, trem, carro) por seus 48 quilômetros de extensão, fazem a festa de qualquer amante de vinho. Vale a visita ao “cinturão bordalês” – Oakville a Rutherford -, que se chama assim pela afinidade com o cultivo da cab, e em Yountville, onde há um dos melhores restaurantes do mundo, e para muitos, o melhor dos Estados Unidos, o French Laundry, além de um outro muito bom na Domaine Chandon.

 A Califórnia possui 81 AVAs (America Viticutural Area) das mais das 140 existentes nos Estados Unidos. Bastante diferente do sistema AOC francês, e das denominações européias de um modo geral, a AVA é definida como “uma região de plantação de uvas delimitada, distinta por traços geográficos, cujos limites foram reconhecidos e definidos”. Sua legislação é bem mais liberal para o produtor que suas congêneres européias. As AVAs podem ser grandes ou pequenas e algumas estão localizadas dentro de outras.

 No Napa, além da AVA Vale do Napa existem 13 outras menores, sendo que Carneros (estende-se também ao Condado de Sonoma), Rutherford, Oakville, Mount Veeder, Spring Moutain District, Stag’s Leap District, Howell Mountain e Atlas Peak são as principais. É de uma dessas que saem os grandes vinhos ao estilo de Bordeaux – Opus One, Dominus, Rubicon, Trilogy e aquele que deu início esse estilo, o Insígnia.

A Califórnia não se restringe aos vinhos estilo bordalês ou feitos só com a cabernet, conhecidos por lá como cab. Seus chardonnays são fantásticos – vide Chateau Montelena, Mer Soleil, Beringer Private Reserve, Bien Nacido, – assim como alguns tintos à base da uva syrah da vinícola Geyser Peak, ou um zinfandel da Turley (ou da Ridge), um pinot noir da Willian Selyen ou da Saintsbury. Isso ficando apenas nos vinhos que já tive oportunidade de degustar. Poderia fazer muitas outras seleções de grande nível, como por exemplo dos raros e especiais cult wines (Bryant Family, Araújo Estate, Maya), ou alguns exemplares excelentes de vinícolas com preços mais acessíveis ao bolso do brasileiro, como a J. Lohr, Kistler e Buena Vista, entre outras. Outras variedades tintas, como merlot, cabernet franc, sangiovese, assim como brancas sauvignon blanc (fumé blanc), riesling, gewurztraminer, semillon, viognier etc., nas mãos de bons produtores, em determinados terroirs, originam magníficos vinhos californianos.

Entretanto, até chegar ao topo da fama nem tudo foram flores para os vinhos californianos. Muitos espinhos se apresentaram, tais como a praga da Phyloxera (por volta de 1880), a famigerada lei seca (1920-1933), a crise da Bolsa (1929) e, mais recentemente, a segunda onda de uma moléstia, que já havia atacado os vinhedos da Califórnia há 120 anos, a doença de Pierce. Os tempos de ouro começaram na década de 70, e um fato merece ser destacado: a famosa degustação às cegas feita na França, em 1976, coordenada pelo crítico inglês Steven Spurrier. Nesse evento, o tinto Stag’s Leap 1973, do Napa Valley, bateu grandes vinhos franceses como o Château Mouton – Rothschild 1970 e o Château Haut-Brion 1970; tendo o Chateau Montelena Chardonnay 1993 se colocado como o primeiro entre os brancos, deixando para trás famosos borgonhas como o Mersault Charmes e o Drouhin Clos de Mouches.

Pode-se dizer que, a partir daí, o mundo vinícola passou a prestar atenção nessa região e, por tabela, abriu espaço a outros países do Novo Mundo dos vinhos. É difícil imaginar hoje que, até 1966, os vinhos mais vendidos na Califórnia eram os baratos e doces, tipo Porto.

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