A história do sapo e da centopeia

O sapo via passar todos os dias à sua porta a centopeia.

E ficava a pensar como aquele estranho animal se podia deslocar tão facilmente, apesar de ter tantas pernas. Nunca se enganava, conseguindo sincronizar perfeitamente o movimento de todas as patas. O sapo não podia acreditar como isso fosse possível!

Um dia decidiu perguntar à centopeia: ‘Olha lá, centopeia, como é que consegues andar com essa facilidade, tendo tantas pernas? Como é que não te enganas? Como é que não trocas as pernas?’

A centopeia nunca tinha pensado nesse assunto. Durante alguns momentos ficou a pensar naquilo que o sapo acabara de dizer. Depois, sentiu-se muito confusa. Era a primeira vez que ficava assim tão confusa. Quis andar e não conseguiu. Começou a misturar as pernas, não sincronizando os movimentos.

A centopeia entrou em pânico. Julgou que sofria de uma doença terrível. Mas, na verdade, não sofria de nenhuma doença. Tinha sido apenas o fato de pensar que lhe tinha tolhido os movimentos. O pensamento tinha interferido em todo o seu mecanismo e acabara por avariar esse mecanismo.

Só havia uma saída: deixar de pensar. Se a centopeia deixasse de pensar, certamente voltaria a
andar com a mesma naturalidade, com a mesma facilidade. Voltaria a ser uma centopeia normal.

Fonte: Conversas Inacabadas com Alberto Caeiro. Ed. Pergaminho/Lisboa 1999. Autor: José Flórido

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s